22.10.17

Vinho com Letras na praia

A celebrar seis anos de livros, a editora volta d' mar junta de novo numa só noite massa de sargo, poemas, cântaros, revistas, e o que mais aparecer na Violeta (Casa dos Cedros, no Largo da Independência, Nazaré). O «Vinho com Letras» era para se chamar «Café com Letras», mas como na Violeta não há café, ficou «Vinho com Letras». Desde 2013 que autores, leitores e de resto, quem quiser, se sentam à mesa para uma noite verdadeiramente cheia de vinho, perdão, poemas.


6.10.17

O sagaz mendigo da Nazaré

É um livrinho que resume o autor, assim ele quis, como último de poesia. O autor Miguel Martins anunciou que não mais escreverá poemas e estes são os últimos escolhidos pelo próprio para resumir o que fica da obra. De entre as escassas 22 páginas, deste livro editado pela Fahrenheit 451, um dos poemas viaja até à Nazaré. Em apenas dois versos há um «sagaz mendigo». É num dos mais inquietantes poemas escritos por Miguel Martins e mais distanciados, como escreveu Manuel de Freitas. Apenas isso.


Não, não são os poemas que me interessam,
mas os poetas, os gritos noite dentro,
a casa que é alheia e se faz minha,
seja defronte ou em Paris ou mesmo
numa centúria distante e repintada.

O Alex esconjurando a impotência,
o Silva Ramos engravatando o vinho,
o Mário Alberto apostrofando as pedras
da Avenida, ou o sagaz mendigo
da Nazaré, todo onomatopeias.

Não, não há verso que luza mais afoito
do que a rosa de crepe num bordel
quando a comeste, com sal e pimenta,
e recitaste, com pompa vitoriana,
o preçário, tal fora a nossa vida.

O Caçador Esquimó
Miguel Martins
Fahrenfeit 451, 2017

6.9.17

Testemunhos para entender Redol

Para que se compreenda melhor a história literária de Alves Redol e as incursões que fez quer em Vila Franca de Xira, quer no Freixial ou na Nazaré, é preciso escutar quem com ele partilhou os dias numa «amizade sem esforço». Os testemunhos reunidos dão um volume muito curioso da vida e da obra do autor de «Uma Fenda na Muralha». Partindo das gravações feitas com «as pessoas simples, quase analfabetas» que conviveram com Alves Redol, os dois organizadores desde livro revelam um indiscutível mundo para que se perceba melhor a forma de Redol abordar o quotidiano que o perturbava. Neste livro «Alves Redol, testemunhos dos seus contemporâneos» estão o compositor Zeca Afonso, a escritora Matilde Rosa Araújo, Raul de Carvalho, Sidónio Muralha, o pintor Rogério Ribeiro, e tantos outros escritores e artistas plásticos, ao lado de gente anónima que aqui ganha relevo pela experiência que revela: Abel da Silva, amigo de Redol no tempo em que este percorreu as ruas estreitas que vão dar ao mar, o pescador Manuel Vagos que foi seu assitente técnico regional para o argumento do filme «Nazaré» de Manuel de Guimarães, Raimundo Ventura que neste livro lhe dedica um poema, além de um capítulo dedicado aos depoimentos recolhidos na Nazaré, em que se salientam os nomes de Brígida de Jesus Fialho, Rosa da Galiana, Francisco Gandaio, Diamantino Peixe, João Vaz «joaninha», entre outros. São mais de 500 páginas organizadas por Maria José Marinho e António Mota Redol que alimentam a obra de Alves Redol.

- Era na taberna do António Aleluia que essas coisas se falavam. Recorda-se disso?
- Recordo. Era ali que as coisas se falavam.
...
- Quando foi para ler o livro Uma Fenda na Muralha, o Manel esteve lá...
- Estivemos. Ele lia e nós víamos se realmente estava concreto.
- Ele até corrigia?
- Às vezes alguma coisa que nós dizíamos ele corrigia.
- Como é que o Manuel Vagos conheceu o Alves Redol?
- Foi por intermédio do Abel. Apareceu aí e o Abel indicou-me a mim p'ra eu andar com ele, mostrar-lhe umas certas coisas. Mostrei-lhe umas certas coisas e ele disse que não era aquilo que queria ver, que queria ver era casas dos pobres. E eu então levei-o a todas as casas pobres que existiam, até cagonas aí no meio dos caixilhos, através da bandeira do sítio, só aonde é que havia miséria e era isso que ele gostava de ver. E foi tudo isso que eu percorri com ele.

(excerto da entrevista ao pescador Manuel Vagos)

Alves Redol, testemunhos dos seus contemporâneos
org. Maria José Marinho e António Mota Redol
ed. Caminho, 2001

12.4.17

Os pés-descalços e os pés-calçados

Vale mais tarde que nunca, diz o ditado. E ter nascido escritor aos 72 anos, não é tarde. É no tempo que é ou que tem de ser. Álvaro Laborinho Lúcio, nazareno, ex-ministro, ex-presidente da Assembleia Municipal da Nazaré, ex outras coisas de estado e de responsabilidade públicas, escreveu já dois livros (um deles com a Nazaré como pano de fundo). E o Jornal de Letras acaba de publicar uma Autobiografia. É de ler!

Na primeira vez que nasci havia guerra. Na minha terra, Nazaré, havia fome. As pessoas dividiam-se em pés-descalços e pés-calçados. Os miúdos descalços vestiam camisola de escocês esfiapado e andavam nus da cintura para baixo. Eu usava calções. Quando chegou o tempo de aprender a ler, a escrever e a contar, o meu pai mandou-me para a Escola dos Pescadores e eu fiquei colega dos pés-descalços. Aí, ao princípio, nascia todos os dias um bom bocado. Acho que foi nessa altura que nasceu por dentro a parte mais funda de mim. Nasceu e ficou lá.

Álvaro Laborinho Lúcio
Entre as linhas
JL-Jornal de Letras, nº 1214, 12 abril 2017

5.3.17

Escrever em alto mar

Há vários livros publicados sobre a pesca do bacalhau. Os mares da Gronelândia e da Terra Nova foram lugares de trabalho para centenas de pescadores da costa portuguesa, sobretudo durante as décadas de 40, 50 e 60 do século XX. Os relatos são quase ilustrativos da dureza da pesca em alto mar, da vida a bordo durante meses. De entre todos esses livros, está «Nos mares do fim do mundo» de Bernardo Santareno. Não é apenas um livro sobre a faina. Trata-se de um conjunto de textos que mostram a destreza de um médico e escritor que embarcou na frota bacalhoeira para tratar das feridas e dos males dos «pescadores mais bravos do mundo», como escreveu o repórter australiano Alan Villiers, na «Campanha do Argus». Bernardo Santareno, aliás o jovem médico António Martinho do Rosário, embarcou para depois escrever essas atrozes desventuras no mar.
A pesca do bacalhau levou dezenas de pescadores da Nazaré a fugir dos Invernos rigorosos em que não se pescava na costa e a tentar uma vida financeiramente melhor. Alguns estão neste livro. Aqueles que, de algum modo, se cruzaram com o jovem médico: o Pescadinha Ova da companha do navio Álvaro Martins Homem, Toino Fialho que caiu ao mar apanhado por um cabo da proa do arrastão António Pascoal, Matias Varina e Joaquim Ribeiro do mesmo barco, Toino Nazareno sobrevivente do naufrágio do Maria da Glória, e tantos outros, ao lado de marinheiros da Fuzeta ou da Póvoa de Varzim.
Corre sangue e maresia e gelo e neve nesta escrita de Bernardo Santareno. Consegue, apesar dos naufrágios e dos tiros dos submarinos da segunda guerra, criar com poesia e rigor dramático a vida a bordo dos arrastões por onde passou. Foram duas campanhas
A reedição de «Nos mares do fim do mundo» vem acompanhado de dois textos e várias fotografias inéditos.

Foi no «Sam Tiago», um navio-motor de pesca à linha.
O rapaz era da Nazaré. Verde, de dezoito anos. Taciturno, muito calado, vestia sempre de preto (algum luto recente?) e dava nas vistas pelo uso de um longo terço, feito com conchas do mar, que ele amarrava todas as manhãs à cinta, na hora dos «louvados», antes de arriar... Era dum trigueiro sombrio, bronzeado, enxuto de carnes e leve de movimentos, mesmo grácil. Estranha também era a maneira como tratava os outros, quando estes, irresistivelmente atraídos para ele, tentavam entabular conversa: fixava-os com os seus intensíssimos olhos verdes-lume, por momentos agitava as negras pestanas longas e duras, meneava a cabeça em jeitos de cachopo amuado e...nem uma palavra!
Cada verde costuma ficar ligado a um dos mais experientes pescadores (às vezes pai, ou tio, ou irmão), que lhe ensinará a rate da pesca e o protegerá no mar. Duas vezes e sucessivamente recomendado pelo capitão a dois da companha, de ambos o esquisito nazareno, mal arriado o bote, fugiu obstinado e acintoso. 

Nos mares do fim do mundo
Bernardo Santareno
Prefácio de Álvaro Garrido
E-Primatur, Março 2016

27.2.17

Leitura de um poema com a Nazaré dentro

Eis de novo um dos poemas que Inês Dias escreveu e que tem a Nazaré lá dentro. Já aqui o referimos por diversas vezes, como sendo um texto publicado em revistas e em livro. Surge agora dito por Raquel Marinho, jornalista e leitora de poesia. Trata-se do poema «A Minha Primeira História de Portugal».



9.8.16

«Os Aventureiros na gruta do tesouro» de Isabel Ricardo

Quatro primos encontram-se na casa de uma tia. A princípio não se entendiam, mas depois, por causa de um turbilhão de coisas que acontecem, acabam por tornar-se aventureiros. Metem-se em situações arriscadas, como a gruta conhecida por Boca do Inferno, descobrem um livro em que se conta o naufrágio de um submarino alemão durante a II Guerra Mundial. E depois há o forno d' orca, a onda gigante da Praia do Norte, a pedra do Guilhim, o suberco,... Tudo se passa na Nazaré. Pode ser uma excelente leitura para os dias de férias, mas o interesse mergulha sobretudo na ficção em torno de lugares verdadeiros, a par de algumas passagens da História da Nazaré. «Os Aventureiros na gruta do tesouro», escrito por Isabel Ricardo, é um livro juvenil que foi reeditado este ano, com capa de Tiago da Silva e ilustrações de Isabel Alves. A autora diz que Os Aventureiros estão a viver uma nova fase da vida. Para além deste título, há outros da mesma colecção: «No Rio Subterrâneo», «O Enigma da Lagoa», «Na Ilha Misteriosa», ... A autora, Isabel Ricardo, nasceu na Nazaré em 1964, escreveu o primeiro livro de aventuras aos 11 anos.


Os pequenos abriram os olhos de espanto. Pela sua imaginação viam carroças carregadas e pessoas a passarem por onde agora só havia mar, com ele a beijar-lhes os pés descalços. Quase estavam em transe, presos da palavras da velhota, invejando-a por ter vivido naqueles tempos. Todos eles sabiam que os habitantes da Nazaré chamavam suberco ao promontório e por isso não se espantaram.
- Mas nem sempre foi assim...Há muitos séculos o mar inundava toda a Nazaré, o Valados dos Frades e até a Fervença e Maiorga, que ficam poucos quilómetros antes de Alcobaça. O Monte de São Brás, então chamado Seano, estava rodeado pelo mar - acrescentou a neta, com os olhos a brilharem intensamente, recordando através dos rostos dos quatro primos o que ela sentira quando a avó lhe contara aquelas histórias tão antigas sobre tempos tão longínquos. - Com o passar do tempo o mar foi recuando e esteve mesmo como a avó diz. Mas presentemente o mar tem vindo a roubar cada vez mais praia.

Os Aventureiros na Gruta do Tesouro
Isabel Ricardo
Saída de Emergência, 2016

17.6.16

O mar como assombro

Jaime Rocha
(foto de Nuno Ferreira Santos)
«Escola de Náufragos» o mais recente livro de Jaime Rocha mereceu um interessantíssimo artigo de Hugo Pinto dos Santos, no jornal Público. Pegando no mar como assombro, percorrem-se os 30 anos que separam «Tonho e as Almas» deste «Escola de Náufragos», passando pelos poemas de «Mulher Inclinada Com Cântaro».
Diz-se, neste artigo que A Nazaré constitui um local emblemático do percurso de escrita de Jaime Rocha, em títulos tão distintos como Mulher Inclinada com Cântaro (Volta d’Mar, 2012), mas também numa novela publicada há mais de trinta anos, Tonho e as Almas (Relógio D’Água, 1984). “Estes trinta anos de pausa [entre Tonho e as Almas e Escola de Náufragos] permitiram-me distanciar totalmente, friamente. Tirar as emoções em relação à minha infância, para poder libertar-me disso tudo, porque acho que não é bom para a literatura.” E Jaime Rocha volta a traçar os limites e as confluências dos géneros: “As emoções, para mim, são boas para o teatro; não as quero pôr na poesia, nem na prosa. Deixo as emoções para as personagens do teatro.” Quando compara a novela de 2016 com a que publicou na década de 80, afirma: “Este distanciamento permitiu-me ser muito frio para com esta criança, mesmo sabendo que ele vai caminhar por um terreno instável e pantanoso, que eu próprio, enquanto criança, vivi e que é a rua, o mar, a areia, as ondas, o perigo. O medo. Das almas do outro mundo, da morte. Os pescadores têm uma relação muito próxima com os seus mortos. Os seus mortos são amigos, porque morreram a lutar pela sobrevivência dos vivos. E isso permite uma relação de diálogo com os mortos.


25.5.16

«Escola de Náufragos» de Jaime Rocha

A praia teve sempre náufragos e uma escola de gente que aprendeu a dor da morte, do desaparecimento, gente que está impregnada de sofrimento. Essa dependência do mar tem vindo a ser escrita por alguns autores que se acercaram do paredão e o olharam. A «Escola de Náufragos» é o novo livro de Jaime Rocha. Não sei ainda se de prosa, se de poesia com um dramatismo que se poderia levar à cena. Este livro, tal como em «Tonho e as almas», vai a Raúl Brandão buscar o assombro. Enquanto estou nas primeiras páginas, leio nos jornais: o i diz que Jaime Rocha voltou à infância e que «...“Escola de Náufragos” puxa as suas redes a partir da memória, arranca vivências impressivas de um país que é o retrato de uma das mais veementes noções que temos de Portugal, aquele da austera e firme têmpera que de diferentes modos foi glosada pelos grandes cronistas portugueses», no notícias do bloqueio Fernando Paulouro chama-lhe magnífico, o Diário de Notícias considera que este livro tem uma «narrativa arrepiante». Para que seja o próprio autor a dizer a que regressa, escutamo-lo numa entrevista na Antena1. E aqui podem ler-se as primeiras páginas.


Lá ao fundo, para onde desce a vila, há um grande mar e é sobre ele que cai uma chuva intensa que depois atinge os telhados e transforma as ruas em pequenos riachos. A água vai subindo pelas encostas que protegem a arquitectura dessa vila e desaparece para norte. É do mar que vêm os gritos que caem em cima da criança como uma pedra, como se uma ave belicosa viesse poisar‑lhe nas costas e debicasse as bolas de trapo e papel que o tio lhe havia feito para servirem de brinquedo.
Inicia‑se aqui uma nova vertigem de luto, com as mulheres num choro violento e os homens a fumarem pelos cantos, um cheiro intenso a velas e a borras de café e um grande lençol que estendem em cima de uma cama como se tudo aquilo não fosse apenas um ritual, mas de novo a maldição a entrar naquela família, uma coisa gravada pelo tempo no promontório que tomba sobre o mar.
Nesta casa só se fala de morte, diz o pescador velho, 
e mesmo aquele que anda ali pelo chão aos trambolhões agarrado aos trapos tem os dias contados, vai deixar de ser criança cedo.
Há qualquer coisa de incerto no olhar da criança, uma ausência de claridade como se um besouro voasse à sua volta e lhe turvasse a vista. Está vestido com uma roupa de xadrez, cheia de remendos, e
o seu corpo pequeno, enroscado devido ao frio, exala um cheiro a podre, como se tivesse um rato morto dentro do bolso.

Escola de Náufragos
Jaime Rocha
Relógio D'Água, 2016

14.5.16

Verso branco, táctil, ondulado

É profícuo o olho de Miguel Torga sobre o país. De norte a sul, escreveu poemas, traçou diários, contou o que sentia ao olhar a terra, o céu e o mar. Não é um autor de consensos, embora a Portugalidade e noção de pátria se revelem nas citações que dele são feitas pela inteligência luso-literata. Fartou-se de escrever, este médico de nome Adolfo Rocha, nascido na aldeia transmontana S. Martinho de Anta, Sabrosa, para lá do rio Douro. E desde que faleceu, em 1995, já reuniram várias vezes as obras, quer de prosa quer de poesia.
Um dos mares por onde andou, deixou-o escrito, sobretudo nos volumes de Diário. A Nazaré surge, pelo menos desde a Páscoa de 1943, a ela voltando muitas vezes. Escreveu poemas, inclusive «Mar» um poema dramático, assinalou na diarística olhares sobre os costumes ou os pescadores.
Atente-se nalguns poemas:


Nazaré, 13 de Agosto de 1969

Entardecer

Longa sutura a unir
A voz do mar
E o silêncio da terra,
A estrema do areal
É um verso branco, táctil, ondulado;
Cansado de brilhar,
O sol desce e coalha
Em acres e vidradas cantarinhas;
Deitada à sobra da sua beleza,
Uma Vénus humana, semi-nua,
Purifica a impureza
A olhar as vagas onde o céu flutua.


Nazaré, 2 de Janeiro de 1944

Canção

Mar morto da minha vida
Com ondas baixas, humanas;
Eira de palha batida,
Já sem grão e sem praganas...

Aquece-o, triste, sem brasas,
O frio sol de Janeiro;
E andam gaivotas sem asas
A boiar no atoleiro.


Poesia Completa I & II
Miguel Torga
Circulo de Leitores, 2002

4.4.16

Uma mulher de sete saias à porta da cadeia

a revista do expresso
Corria o ano de 1959. António Borges Coelho estava preso em Peniche. Preso político às mãos da PIDE. Hoje é professor catedrático jubilado. Tem 87 anos. Em entrevista ao Expresso, recorda os seis anos em que esteve preso, mas fala sobretudo da História de Portugal, que está a escrever, das leituras que faz, da política, da liberdade. Uma entrevista para ler com atenção e em que o professor recorda quando foi libertado «Ao sair, à porta do Forte de Peniche, uma mulher das sete saias veio ter comigo e disse-me: "Estás a sair de Peniche". Viu que me tremiam as pernas e deu-me um abraço.»
António Borges Coelho escreveu um poema nos dias de prisão em Peniche. Dali via-se a Nazaré.


FORTALEZA

Ao comprido na cama de ferro
as paredes de costas voltadas
em brancura neutra
ouço o coração a dar pancadas.

Pareço um morto
morto vigiado por um buraco
e que mesmo deitado no jazigo
pode sumir-se pelo chão opaco.

- António não percas a fé.
Em dias claros vê-se a Nazaré. -

no mar oceano
António Borges Coelho
Editorial Caminho, Lisboa, 1981

2.4.16

Um poeta livreiro que ama a Nazaré

foto de Ric Vives Rubio / Público
A Nazaré dele tem um mar que «fustiga». Por lá passou e ficou, de quando em vez. Agora já não a visita com a regularidade de outros tempos. José Antunes Ribeiro, autor de «Todos os livros, diz ele» uma recolha de poemas feita na sua Ulmeiro, está agora entre o fecho anunciado da livraria em Lisboa e a vaga esperança de que aquele espaço permaneça de portas abertas. Da Nazaré, ainda hoje guarda a amizade, sobretudo com o grupo da Biblioteca da Nazaré. E poemas. Três deles foram incluídos na referida edição. José Antunes Ribeiro, nasceu em Alburitel, Ourém, em 1942. Já disse que uma boa estrela o conduzirá de novo à praia, como «gado ao encontro da água em dia de canícula e sede ancestral».


Nazaré II

O mar sempre    o mar a mar
um vento tépido, uma brisa quente
os pescadores na soleira das portas
as gentes marítimas graves e solenes

quem te dirá do sol amargo
e do sal das tragédias o luto
e a dor destas mulheres viúvas e mães
tão cheias de amor pela terra?

quem pariu estes filhos? quem
os viu morrer tão novos e tão
sábios de marés estrelas e luas?

quem lhes trará o conforto, a
palavra certa     o cúmplice silêncio
a certeza de uma vida plena?

Todos os livros, diz ele
José Antunes Ribeiro
Ulmeiro, 1999

15.11.15

«Diário Inédito» de Vergílio Ferreira

São conhecidos os nove volumes da diarística de Vergílio Ferreira. Nos «Conta-Corrente», iniciados em Fevereiro de 1969, o escritor leva-nos até Évora, Lisboa, Faro, lugares onde leccionou, Fontanelas onde passou boa parte do tempo livre, ou Melo, terra onde nasceu. Mas há um outro volume, editado já depois da morte, em que se revelam mais algumas páginas do diário de Vergílio Ferreira. Trata-se de «Diário Inédito» que foi escrito entre os 28 e os 33 anos de vida do romancista e que revela a passagem pela Nazaré. São breves dias, entre 12 e 23 de Setembro de 1948. O olhar do autor sobre o mar, dois poemas «Baba-se o mar roncando sobre a areia...» e «Vim para aqui pra te desafiar / Mar !...», a escrita empedernida e satírica de Vergílio sobre outros, uma estória vivida na praia e uma observação sobre «...os primeiros que chegam de uma Gronelândia longínqua...». Sabe-se que Vergílio Ferreira tinha problemas respiratórios e talvez por isso tenho ido passar uma temporada à praia. Quando foi colocado em Lisboa, para leccionar no Liceu Camões, passava o tempo livre em Fontanelas, Sintra, bem perto do mar. Em Janeiro de 2016, comemoram-se os 100 anos do nascimento de um dos melhores romancistas portugueses.


Praia da Nazaré, 12 de Setembro
Cá está o mar, o bruto. Estende-se ao comprido, esbarrondado, ronca e baba-se sobre a areia. Pequenos barcos, traquinas, sobem-lhe para o lombo, catam-lhe o peixe – ele dorme. Tem os olhos grandes cerrados, a arca do peito arfa. Não entende ninguém, ninguém o compreende. Estúpido, cavernoso, está para ali. Até que um dia, sem razão, firma-se nas quatro patas, urra temeroso e atira-se às marradas contra tudo. Depois, outra vez sem razão, abate amodorrado, torna a roncar e a dormir. De noite, a lua veio passar-lhe uma carícia de mãos pelo dorso. A besta indiferente, rosnou sempre. Cava-lhe as entranhas uma boçalidade de pasmo. Anda a alegria em volta dele, crianças deitam-lhe quimeras de inocência – e o bruto só ronca. Sinto naquele monstro a trágica desgraça da força imerecida, da força que apenas se justifica no urro e na marrada. E penso, involuntariamente, na minha serra, tão serena e forte, tão altiva e tão cheia de compreensão. Quando há alegria no coração dos homens, tem rebanho e flores de paz. Quando o vento fala de lôbregas fomes cobre-se de luto e brama. Mas sempre com uma força digna que espalha respeito por léguas em redor. Está ali quieta, firme, disposta a carregar com a responsabilidade do seu amor e da sua raiva.

Diário Inédito 1944-49
Vergílio Ferreira
Quetzal, 2010

24.10.15

«Tonho e as almas» de Jaime Rocha


«Tonho é o último dos náufragos de uma geração de pescadores» diz-se no cólofon em jeito de súmula. Pescadores, hoje, já muito poucos o podem dizer que o são. Este, Tonho de seu nome, carrega uma heróica demanda à procura de encontrar um paixão. Daquelas que perfura o promontório e encontra mesmo o dragão que há-de estar ainda escondido na pedra. Vive de rugidos e fantasmas, de alucinações e tragédias. Encontra as almas do outro mundo. Trata-se do primeiro romance de Jaime Rocha, autor nascido nestas areias onde se encontram bartidores, bicheiros, candís, enxamas, panais, recoveiras, varolas ou xalavares. Noventa e uma páginas de alucinações de Tonho. O livro tem no fim um glossário que ajuda a compreender o chamado nazaréu, língua dos pescadores da Nazaré. É um daqueles livros para levar no foquim, onde quer que se esteja, frente ao mar.


Tonho e as almas
Jaime Rocha
Relógio d'Água, Setembro 1984

10.7.15

«As praias de Portugal» de Ramalho Ortigão

Quem disse que o Fuas não existiu? Até Ramalho Ortigão, tido como um dos mais notáveis prosadores de toda a história literária, o descobriu: «Êle andava caçando no dia 14 de Setembro de 1182. A manhã estava enevoada e triste. Os cães levantam um veado, que parte à desfilada...». No livro «As Praias de Portugal» há descrições de um rigor eloquente, quiçá translúcido, mas de respeito. Ramalho discorre sobre o mar, o oceano, os habitantes da água, da Foz do Douro a Setúbal, merecendo a Nazaré um dos capítulos principais do livro. Capítulo XI em que aborda «A praia. O sítio. A Senhora. Um dos milagres. Critica patológica. Como se curou D. Isabel de Moura. Acabaram os milagres da Nazaré. Teoria dos milagres e remédios da moda.» Só isto chegaria para ler este histórico livro e manual para quem se quer aventurar nos areais e mares da costa portuguesa. Ide a banhos e Ramalho vos acompanhe!

A vida na Nazaré é tão cómoda como na Ericeira. As casas alugam-se mobiladas, com louça, com roupas de cama. O hotel, muito bem situado, perto da praia, tem o preço de 800 reis por cada hóspede. O peixe é abundante e excelente.

As praias de Portugal - guia do banhista e do viajante
Ramalho Ortigão
Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1943  

4.2.14

«A Nazaré na Obra de Alves Redol»

Um dos escritores que melhor descreveu e romanceou a praia desapareceu há 45 anos. Alves Redol tem sido lembrado ultimamente quer pela reedição da obra, quer pela exposição bio-bibliográfica que tem percorrido o país.
Foi na praia que Redol observou algum do melhor material para a escrita neorealista: o livro Uma Fenda na Muralha é o relato perfeito dessa «...Nazaré é um verdadeiro museu da alma humana...». O escritor viveu na casa que hoje é o Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso - Museu da Nazaré e este, em 1980, publicou em catálogo (148 págs.) textos e imagens, factos e opiniões sobre Alves Redol. Diversos outros escritores, amigos de Redol, escrevem textos sobre ele, há uma antologia nazarena de páginas da autoria de Redol, recensões e críticas sobre o romance Uma Fenda na Muralha e o O Lago das Viúvas romance inédito de Redol na Nazaré, manuscritos, fotografias, o filme Nazaré de que foi argumentista, assim como uma resenha da obra escrita e publicada em vida.
Um livro que documenta bem a vida que percorreu o ribatejano que se deixou apaixonar pelo mar.


A Nazaré na Obra de Alves Redol
ed. Secretaria de Estado da Cultura / Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Nazaré, Maio 1980 

15.1.14

«Quando o Mar fala» de Joaquim António

Cada um dos nativos que vive frente ao mar tem um olhar largo, quer esteja no paredão frente ao mar, quer esteja para lá da linha que recorta o azul do verde. E dentro de cada um desses indivíduos da praia há uma vontade de espalhar o que sabe sobre as artes de pesca, os galeões e os naufrágios, as redes, os pescadores ou os artistas da praia. 
Um desses mestres era Joaquim António, um da última geração de lobos do mar. Esquim Tonh armazenou dentro dele muitas vidas e no livro que publicou, pouco tempo antes de deixar o número dos vivos, dá a conhecer artes tão diversas como a pesca nas traineiras, a arte do espinel, o nome dos galeões e dos botes, mas também as alterações com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia ou a vida dele próprio Joaquim António, pescador e profissional da marinha mercante nos navios que atravessavam mares «desde o glaciar Árctico ao Antárctico». 
De entre os lobos do mar, amigos e artistas que o autor lembra, há também «O Poeta pintor nazareno» Mário Botas. 
Joaquim António ele próprio era um artista pela maneira como tratava os amigos e como celebrou a vida, quer à mesa a brindar, quer a escrever sobre a praia.



O verdadeiro marinheiro


Barra fora vida incerta
na gávea vigia alerta
dos lugres bacalhoeiros
Não há só um rosto triste
a bordo tudo persiste
ás fainas de dias inteiros

De vez em quando a guitarra
geme de lento bizarro
numa imagem de saudade
e o lugre ainda em mágoas
segue inforado nas águas
sem a ambição nem maldade

Na Gronelândia gelada
cruel e temendo a cilada
que os icebergs nos trazem
tudo à nossa volta é gelo
que panorama tão belo
só para se ver de passagem

Custa o sono e as mão gretadas
horríveis fortes nortadas
e a morte ás vezes também
em prol do teu lavor
seja bem dito ao pescador
filho desta pátria mãe

Então nem a nostalgia
nos lembra durante o dia
a saudade que nos assusta
por ser longo o dia é mau
há quem coma bacalhau
sem saber o que lhe custa



Quando o Mar fala
Joaquim António
ed. autor, Nazaré, 1999

20.8.13

«As Aventuras de Um Crâneo e outros textos» de Mário Botas


Volta-se sempre uma e outra vez à obra de Mário Botas. Por nos ter deixado cedo e por percebermos que dali viria muito de uma arte riquíssima.

Como uma espécie de paixão e certamente com um olhar estreito para a praia, um grupo de autores e editores reuniu em livro «alguns versos e prosas que escreveu desde 1971...até poucos dias antes da sua morte...1983». Em «Aventuras de Um Crâneo e outros textos», título de um conto de Botas, há uma sequência cronológica que nos revela poemas, fotografias, textos de catálogos e exposições, a entrevista que Rui Ferreira e Sousa fez a Mário Botas, a propósito da primeira exposição na Comissão Municipal de Turismo da Nazaré, contos, cartas e ilustrações. Muitos destes textos escritos na praia, onde nasceu e viveu, onde aprendeu a soltar - com um tio - os pincéis e as canetas tinta-da-china, onde soltava areal fora os galgos e a liberdade.
Edição simples, mas muito cuidada, organizada por Daniela Gomes, Inês Dias, Luís Manuel Gaspar e Manuel de Freitas, numa editora que tem revelado alguns dos novos (bons) poetas portugueses. Mário Botas que tanto amava a poesia, fica muitíssimo bem neste quadro.



POEMA A ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS

Das bicicletas abandonadas à beira dos caminhos
escorrem cachos de madressilvas: uma a uma
a flor perdida vai-se entregando
e colhendo
as flores já não são feitas para serem abraçadas
colhidas às ocultas
mas violentadas até se saber para que lado caem
mortas de mordeduras mórbidas e lacustres.

Uma casa um grilo…
uns dentes cerrados a dizer não e sim
alternada e silenciosamente as gaivotas
contam histórias de pasmar — as asas cortadas
e um homem passa na rua a assobiar.


Nazaré, 5 de Agosto de 1971


Aventuras de Um Crâneo e outros textos
Mário Botas
Averno, 2012

10.8.13

«Nazaré» de Raul Brandão

Em Junho de 1923, Raul Brandão escrevia que « a Nazaré é a terra mais importante de pescadores nesta parte da costa portuguesa.» Trata-se do mais belo retrato factual de uma terra de pescadores exposto no livro Os Pescadores (1923). É um conjunto de vários textos que formam um consistente livro de narrativas de viagens. São quase retratos naif dos lugares por onde o autor passou. Na descrição que faz da praia, Raul Brandão, parte do Valado para chegar à costa encontrando olha para o «morro avermelhado e riscado, com vegetação pegajosa de urzes e de cardos e um penedo destacado na ponta - o bico do Guilhim. Lá em cima as paredes brancas de uma aldeia árabe entre sebes de cactos hostis - o sítio. Pedaços de rochas salientes ameaçam desabar a toda a hora...» E há relatos em tono da pesca, do peixe, textos sobre a chata e a neta (barcos), a mulher, o pescador, o Sítio, a Pederneira...
Raul Brandão nasceu na Foz do Douro (Porto) em 1867 e era filho e neto de pescadores. Foi capitão do exército, mas é sobretudo a escrita que ficará. É um dos elemento da «geração de 90» (século XIX), influenciada pela estética decadentista-simbolista de matriz parisiense e foi no Porto que revelou o opúsculo Os Nefelibatas (1892). Ao seu lado, os companheiros António Nobre, Alberto de Oliveira, Júlio Brandão, entre outros. Morreu em Lisboa em 1930.

Os Pescadores
Raul Brandão
Editorial Comunicação, Lisboa, 1986